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ARTIGOS

Teias sócioespaciais: iniciativas e novos usos aos imóveis de valor histórico e cultural - PARTE 2

Autor: Noely Manfredini (Curitiba/Paraná), Janaína Bueno (Lisboa, Portugal) e Paôla M. Bonfim (João Pessoa) - Data: 23/02/2012

 

Numa sociedade de mercado tudo tem um preço ou uma cotação de valor. Nos países europeus, é corriqueiro morar e trabalhar em imóveis dos séculos XIII a XIX. Há mercado constante de compra e venda desses bens e corretores especializados. Na França,  há 91 setores protegidos que cobrem 5.000 hectares de bairros históricos. Ali vivem mais de 800.000 habitantes. No Brasil o mercado ainda é retraído. Há opções  a serem levadas em conta pelas empreendedoras. Tudo pode ter preço  mas nem sempre se analisa a  cotação do valor cultural e histórico. Pode-se decidir querer desmobilizar seus ativos e realugá-los, como fazem os investidores de Fundos Imobiliários. Os recursos de um fundo imobiliário podem ser aplicados em empreendimentos imobiliários, na construção de imóveis,  aquisição de imóveis prontos, ou no investimento em projetos que viabilizem o acesso à habitação e serviços, para posterior alienação, locação ou arrendamento de unidades comerciais. O objeto primordial do FUNDO é o investimento por meio da aquisição de imóveis comerciais prontos já locados. Preferível, todavia, seria a compra de um imóvel histórico como uma fábrica antiga e alugar, gerando também benefícios coletivos. Há parcerias de sucesso, de grupos de investidores  com o poder público. Nada de mal nisso. Não se pode mais é levar em conta apenas os custos e retorno dos investimentos. Pois, a utilização de boa arquitetura não é incompatível com a produção do aumento da riqueza. Se realizar melhorias na qualidade de vida de uma comunidade, qual empresária não iria querer estruturar sua família vivendo  num bom e valorizado bairro? É o desejo da valorização imobiliária que está empurrando a maior parte dos condomínios comerciais (e mesmo casas residenciais com grandes áreas) no caminho dos bens tombados e sua restauração. Trazê-los à vida útil. Seu valor não está apenas no preço do terreno ou em sua localização. Está principalmente na qualidade da sua arquitetura e no significado que essa arquitetura tem para a compreensão da história de uma cidade.

Rio de Janeiro, bairro da Urca. Situado ao pé do morro do Pão-de-Açúcar, recentemente foi declarado, ele inteiro, oficialmente preservado. Logo em seguida as casas e apartamentos ali situados tiveram uma valorização de mais de 20% no mercado imobiliário da cidade.  

Associar a imagem da empresa a iniciativas ligadas ao patrimônio histórico (e não apenas a eventos culturais), já é realidade, no Brasil? Sim. Isso não é contraditório ao desenvolvimento econômico e social, pelo contrário, impulsiona-o. Segundo a Agenda 21 da Cultura (Barcelona, 2004), por gestores de municípios de mais de 40 países, o patrimônio cultural, tangível e intangível, é o testemunho da criatividade humana.  Aliás, cidade sem patrimônio preservado não oferece diferenciais que a destaquem dentre as demais.

Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Banco do Brasil e a instalação de um centro cultural (CCBB RJ) que ocupa o histórico nº 66 da Rua Primeiro de Março, prédio de linhas neoclássicas (1880) no centro. Inaugurado em 12 de outubro de 1989, transformou-se em pólo multimídia e fórum de debates. O prédio que abrigará o Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte (CCBB BH),  ainda em fase de projeto, na Praça da Liberdade, é de 1926 e já foi sede do Comando Geral das Forças Revolucionárias, durante a Revolução de 1930.   Foi tombado em 1977.

Porto Alegre e Recife Banco Santander e a sede  em importante marco arquitetônico. As sedes do Santander Cultural em Recife e Porto Alegre, juntas, já receberam cerca 3,5 milhões de freqüentadores. A do Recife mantém a Biblioteca Marcantonio Vilaça, especializada em arte, arquitetura, moda e fotografia. A de Porto Alegre, o prédio foi  construído para ser a sede do Banco Nacional do Comércio (que sucedeu ao Banco da Província, o primeiro banco do Estado, fundado em 1858) e  mais tarde sediou o Banco Sulbrasileiro e o Meridional,  tem cinema, e acervo da moeda, área de gastronomia, um Telecentro Cultural, que promove a inclusão digital para a terceira idade. Foto Centro Cultural, banco Santander, Porto Alegre/RS.

É preciso dar novos usos aos imóveis de valor histórico e cultural. Essa é uma das mais práticas soluções de manutenção do patrimônio construído, com óbvios benefícios para a sua salvaguarda. “Velharias‟ tombadas (ou não) podem significar progresso, sim. Possuir ou vender imóveis antigos não é mau negócio. Construções centenárias bem preservadas costumam ter sólidas características construtivas, beleza diferenciada e um passado que permanece na memória das pessoas quase sempre de modo positivo. Comprar e restaurar  um bem com estas características traz quase sempre um bom retorno a médio e longo prazo para o investidor, além de benefício fiscal com isenção de impostos. Memória e afeto, eis os pontos importantes. Cada lugar visitado, cada coisa extraordinária que se viu, é, ao mesmo tempo, universal e particular, singular e especial. Um jardim, o velho hospital, a barbearia do trisavô imigrante. Se um patrimônio histórico pode ser local, regional, nacional ou mundial, pode ser reanimado em qualquer lugar. Deve. Por quê? A destruição dos bens herdados das gerações anteriores tem conseqüências. Rompe a corrente do conhecimento. Então uma pessoa desatenta dirá: ora, bens tombados já são transformados em museus e casas de cultura. Só isso... não. Precisam fazer parte do dia-a-dia das pessoas. O importante é dar uma finalidade ao imóvel, pois de nada adianta sua restauração se não estiver ocupado – pois o processo de arruinamento pode recomeçar.A sociedade deve esperar fazer de sua população, não espectadores, mas habitantes do patrimônio. Se não, apaga-se da memória e afasta a afetividade. Há muitas soluções positivas e compensatórias, entre elas, criar atividade diversa da original.

Município de Salto, SP. Duas fábricas têxteis e uma fábrica de papel fechadas (dos anos 1890), foram adquiridas por acionistas italianos e brasileiros. Da fusão resultou a  Tecelagem Brasital (1919). A Prefeitura local  deu  25 anos de isenção de impostos, mas mesmo assim a Tecelagem terminou por fechar. Em 1981, a Moinhos Santistas adquiriu o complexo, até 1995.  Os  60 mil m², o prédio principal e a vila com 240 casas foram comprados em  1998 por um centro universitário (CEUNSP). Embora o antigo Complexo não seja tombado, os atuais proprietários preservaram sua estrutura, apenas  adequando-o para funcionar como universidade.

Convento de N. Senhora do Carmo, Pelourinho, Salvador. Obra típica do estilo colonial barroco sec. XVII, 1586, da Ordem Primeira dos Freis Carmelitas. Tombado em 1938. Uma rede hoteleira internacional alugou o prédio do convento para transformá-lo em hotel de alto luxo (Pestana Convento do Carmo). Mantido o  aspecto de edifício com mais de três séculos de idade, as celas  carmelitas foram transformadas em 79 requintadas suítes e quartos. Os custos foram amortizados com o enorme fluxo de turistas. Foi o primeiro hotel histórico de luxo no Brasil. As fotos estão no  Acervo da Rede Pestana.

São Luiz, Maranhão. Antigo casario colonial de 1817. Passou por reformas em 1993 e  foi transformado no  Teatro Arthur Azevedo.

Estado do Rio de Janeiro, Magé, 1808, a Real Fábrica de Pólvora da Estrela, inaugurada por D. João VI, Minas Gerais, Itajubá, 1934. Fábrica de Canos e Sabres para Armamento Portátil. Em 1975, o governo brasileiro fundou a IMBEL - Indústria de Material Bélico do Brasil. Transferidas para a estatal, as unidades de Itajubá e Magé são, hoje, fornecedoras de armamento bélico para o Exército.

Portugal, Massarelos (freguesia do Porto). Das mais antigas do  norte português, a Fábrica de Louça  de Massarelos foi fundada em 1766. Em 1920 pegou fogo. Tempos ao abandono. Foi comprada e submetida a obras de remodelação. Manteve-se o aspecto exterior e alterou-se  o  interior para  transformá-lo num edifício de apartamentos, cujas obras terminaram recentemente e todas as unidades foram vendidas.

Portugal, Covilhã (Freguesia do Porto).  Desde o século XIX especializou-se como cidade-fábrica. Até os anos 80. Ali agora se guarda a memória dos antigos lanifícios, no edifício pombalino da Tinturaria da Real Fábrica de Panos da Covilhã, um dos primeiros projetos de recuperação do patrimônio industrial português, dos mais representativos prédios fabris. Desde 1992, convertido em instalações universitárias e Museu.  

A relembrar o Estatuto da Cidade. Para quem ainda  desconhece, ele permite, por assim dizer, o uso de moedas no mercado de bens tombados. A idéia de criar uma moeda para o patrimônio nasceu na França e tem obtido bons resultados em Minas Gerais. Em 2011, 90% das construtoras  de grande porte de Belo Horizonte resolveram ampliar suas obras. Passaram a comprar, dos  donos de imóveis protegidos pelo patrimônio, o direito de construir.  Esse comércio existe e é ditado pelas  UTDCs. As Unidades de Transferência do Direito de Construir movimentaram cerca de R$ 50 milhões em 2011.  A empresa Decisão Engenharia foi criadora do primeiro Banco de Utdcs de Belo Horizonte (http://www.decisaoengenharia.com.br). O comércio funciona da seguinte forma: o proprietário do bem tombado, se não quer construir edificação em seu terreno tombado porém o manteve em bom estado de conservação, é autorizado a vender o seu direito de construção. Quem compra pode crescer o seu potencial construtivo em 20%, o que significa que uma obra de 1.0000 m2 pode chegar a 1,2 mil metros quadrados no terreno. A legislação é saudável para quem compra e para quem vende. Vende-se as UTDCs e conserva-se o imóvel para aluguel. Em Belo Horizonte, existem cerca de 618 imóveis tombados, 50% deles podem gerar a moeda. Quem ainda não utiliza é por desconhecer essa opção. E através dela é possível viabilizar a restauração do patrimônio cultural. Em Curitiba, o TPC, ou seja, o potencial construtivo, quando comercializado, transforma-se em cotas que podem ser adquiridas por empresas de construção civil. Pode-se aumentar a área construída, número de pavimentos, ampliação de ático para abrigar casa de máquinas.  No caso dos imóveis chamados Unidades de Interesse Especial de Preservação (UIEPS), o valor total das cotas de potencial construtivo corresponde ao estipulado no orçamento do projeto de restauração

Prédio do Ministério Público do Paraná, Curitiba - restauração orçada em R$ 2,04 milhões de reais. Para atingir este intento, foram comercializadas 10,2 mil cotas a um preço unitário de R$ 200,00 (duzentos reais). Ambas as operações baseiam-se no Estatuto da Cidade, Lei 10.257/2001 e as referências ao direito de construir ou transferência do direito de construir.

Vai instalar um empreendimento? Como diz o povo Vezo, de Madagascar, mora, mora. Devagar, devagar. Pois a educação patrimonial tem que vir à reboque. Já se sabe, uma empresa não patrocina projetos culturais por caridade e sim para obter retorno ou  adequação à sua marca. A realização de boa arquitetura não é incompatível com a produção do aumento da riqueza e por outro lado, realiza  melhorias na qualidade de vida de uma comunidade. Não basta estar ciente da figura do tombamento legal. O ato de tombar por si só não provoca efeitos significativos, mudança de mentalidade e atitudes. Resguarda a “memória”, mas o afeto ainda é pequeno demais.  A revitalização urbana não pode ser só econômica, mas social.

Eis o enfoque, Educação Patrimonial. É peça fundamental. Não é uma metodologia, mas sim uma ação que dispõe de várias metodologias. Ações de capacitação, como formar mão de obra qualificada em restauração e conservação. Ações que conscientizem na comunidade o valor cultural do imóvel e do bairro.  Insisto: só se preserva e valoriza o que se conhece... e muito bem. Quanto mais uma  comunidade conhece e se apropria de sua história, mais ela será agente da preservação, conservação e promoção de seus bens.  Sejam eles materiais (edificações, paisagens, objetos) ou imateriais (manifestações populares, lendas, modos de fazer). Nesse sentido, a empresa interessada em reutilizar um imóvel histórico não pode olhar apenas a reforma ou restauração de fachadas, retrofit, coisas tais. Fará estudos de viabilidade do uso habitacional de interesse social nas áreas centrais históricas e pericentrais. Permitirá que sociólogos, antropólogos e  educadores que já trabalham com arqueólogos, historiadores e arquitetos, dêem ao local a devida valorização.  Contribuirá com ações educativas. Foco no patrimônio cultural, em  escolas próximas e comunidades adjacentes.  Oficinas de capacitação. Na  verdade, só há um meio eficaz de assegurar a defesa permanente do patrimônio de arte e de história do país: é o da educação popular.

Casas do Patrimônio. Enfatizam a promoção permanente de oficinas, cursos e outros eventos voltados à socialização de conhecimentos e à qualificação de profissionais. É projeto pedagógico e de educação patrimonial.

Minas Gerais. Cidades surgidas graças à mineração, Mariana, Vila Rica, Sabará, São João del Rei. Foram sendo abandonadas quando as minas se esgotaram. Não havia outra atividade econômica que desse continuidade ao progresso  da  região.  Recentemente, uma cooperação técnica com o governo da França em parceria com o IEPHA (Instituto Est. Patrimônio Histórico e Artístico de Minas), promoveu ateliês SIRCHAL não só em Sabará, mas também em São Luiz, Pirenópolis, Salvador. SIRCHAL é uma rede para a reabilitação de centros históricos da América Latina e Caribe, patrocinada pela França, BID e UNESCO, entre outros. Metodologia de diagnóstico participativo. Ações integradas para a conservação do patrimônio nas cidades em estudo, oficinas de capacitação e educação patrimonial.

Antes de iniciar as obras, toda empresa deve realizar uma EIA-RIMA (Estudos de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental ou o RAS (Relatório Ambiental Simplificado), segundo resoluções do CONAMA. É também obrigatória a avaliação do impacto cultural que um empreendimento pode causar a uma comunidade ou ao próprio patrimônio histórico. Nesse sentido, o IPHAN tem exigido um “Diagnóstico de Bens de Interesse Cultural” (seja ele material ou imaterial). Conforme os resultados, podem apontar a necessidade de uma compensação pelos danos causados. Assim, a empresa pode promover um bem ao patrimônio cultural, seja por iniciativa voluntária e preventiva, seja por força da lei. ocorreu na Paraíba. Uma pequena equipe da superintendência do IPHAN na Paraíba, curiosamente formada por técnicos oriundos de outras regiões do Brasil, é hoje referência nacional. Briga, educa, luta pelos 6.583 imóveis sob sua proteção: 794 em estado precário mas 286 com valor cultural. Em João Pessoa, permite-se investimento de empresas e pessoas físicas, para preservar ou restaurar prédios, logradouros, sítios  arqueológicos, com dedução mensal de 40% do valor devido em impostos de ISS, IPTU e ITBI. No caso do  Município de Pilões, fez-se uma parceria de sucesso: grupos de capital aberto e fechado  (Chesf e  Energisa S/A) com o poder público e comunidade. Identificado um  cemitério indígena da tradição Aratu de 820 anos durante as obras de instalação de uma subestação de energia. Não se levou em conta apenas os custos, demanda, consumo, mercado e retorno dos investimentos. Sim, a herança cultural.

Paraíba, Município de Pilões. Em 2009 foi feito um estudo preventivo identificado um sítio arqueológico durante as obras de instalação de uma subestação de energia (cemitério indígena da tradição Aratu, que data de cerca de 820 anos atrás, 54 urnas funerárias). Tão logo constatada a presença de artefatos cerâmicos e em pedra lascada e polida, que caracterizam a existência de sítio arqueológico pré-histórico, os trabalhos de movimentação de terra foram suspensos. Devido à grande comoção que a descoberta provocou na população da cidade, que se dirigiu em peso para conhecer o local das escavações e clamou pela permanência do acervo na comunidade, a Prefeitura Municipal de Pilões procurou o Iphan e disponibilizou algumas opções de local para a construção de um Museu, que seria viabilizado economicamente através de entendimentos com a Energisa e Chesf. O  IPHAN estadual, em 2011, nomeou um grupo para planejar  a criação do Museu  de Arqueologia de Pilões, em outra área próxima, com a finalidade de preservar a pré-história do homem da região do brejo paraibano, não se limitando apenas à cidade de Pilões. Optando-se pelo Mercado Municipal, ali havia pequenas construções anexas ao complexo, ocupadas ilegalmente por comerciantes locais, a Prefeitura colocou uma parte deles em outra área. Para os não realocados, acertou-se a inclusão de alguns quiosques  com comércios compatíveis com a cultura (artesanato, lanchonete p/visitantes). Toda a obra vem sendo apoiada e financiada também pela Cia. Hidro Elétrica do São Francisco – Chesf,  Energisa S/A, membros da comunidade. Assim, através de uma iniciativa privada, coordenada pelo setor público federal, com apoio popular e da prefeitura, tornou-se referência para a arqueologia nacional. Ambas as instituições compreenderam a importância de divulgar a descoberta arqueológica e socializar a história e cultura que são referências para a compreensão das sociedades atuais.

 E quanto à  museologia Industrial, o que significa? Exemplos podem ser buscados em Portugal.

 Indústria é toda atividade humana que, através do trabalho, transforma matéria-prima em outros produtos, que em seguida podem ser, ou não, comercializados. De acordo com a tecnologia empregada na produção e a quantidade de capital necessária, a atividade industrial pode ser artesanal, manufatureira ou fabril. Os  chamados Gabinetes de Curiosidades ou os Quartos das Maravilhas designam os lugares em que durante a época das grandes explorações e descobrimentos dos séculos XVI e XVII, se colecionavam uma multiplicidade de objetos raros ou estranhos, porém em forma desorganizada, sem nenhuma classificação ou ordenação. Foram os antecessores diretos dos Museus, que exibem seus acervos ordenados e catalogados cientificamente, para para  preservar e transmitir a informação correta de cada objeto neles incluídos. A museologia Industrial trata do acervo industrial. Objetos de trabalho, fábricas  e seus maquinários,  formas e processos  de produção tornaram-se patrimônio, remanescentes do trabalho produzido principalmente até meados do século XX, quando então se tornaram obsoletos em vista da entrada de novas tecnologias . Aos vestígios e testemunhos de processos produtivos, Os vestígios materiais e imateriais dessas atividades são testemunhos de mudanças culturais que acompanharam os modelos produtivos que se sucedem. A isso se chama de patrimônio industrial. Uma herança do passado. A arquitetura industrial ficou  ignorada, transformada por vezes em monumentos invisíveis, testemunhos edificados de processos produtivos ultrapassados, até  aparecerem exemplos de prédios industriais sobre os quais se fez incidir práticas de musealização. É fundamental, entretanto, que as intervenções feitas sobre esses lugares de trabalho e produção não façam desaparecer totalmente suas funções originais, perdendo de vista o papel que cumpriram essas atividades na paisagem cultural do local onde surgiram. Estimulados pelo crescente turismo de natureza cultural, os agentes patrimoniais utilizam-se de vários recursos para tornar a estética industrial mais atrativa ao visitante, reproduzindo sob efeitos cênicos, os processos operacionais dos maquinários dessas fábricas.  Esses “vestígios de atividades” que movimentaram e impulsionaram o país, tais como o sistema ferroviário, portuário, as primeiras empresas aéreas nacionais, trilhos e estações ferroviárias, prédios fabris, equipamentos portuários atracados perpetuamente – na Europa estão à salvo em Museus Industriais. No Brasil, muitas vezes só fazem parte do acervo da própria Companhia, das fototecas ou das lembranças  guardadas pelos funcionários saudosos. Quantas dessas indústrias ficaram pelo caminho da memória? 

Os edificios e as estruturas construídas para as atividades industriais, os processos e os utensílios utilizados, as localidades e as paisagens nas quais se localizavam, assim como todas as outras manifestações, tangíveis e intangíveis, são de uma importância fundamental. Todos eles devem ser estudados, a sua história deve ser ensinada, a sua finalidade e o seu significado devem ser explorados e clarificados a fim de serem dados a conhecer ao grande público. (...) Edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas, minas e locais de processamento e de refinação, entrepostos e armazens, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as suas estruturas e infra-estruturas, assim como os locais onde se desenvolveram atividades sociais relacionadas com a industria, tais como habitações, locais de culto ou de educação.” (CARTA DE NIZHNY TAGIL SOBRE O PATRIMÔNIO INDUSTRIAL -  texto aprovado pelos delegados reunidos na Assembleia Geral do TICCIH (The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage), de caráter trienal, que se realizou em Nizhny Tagil em 17 /7/ 2003 – Comitê Brasileiro do Patrimônio Industrial).

Em Portugal esses caminhos estão sendo estudados, um a um. Curtumes (curtição de couros e peles  uso no  vestuário,  equipamentos de trabalho). Moagem (moagens de cereais a vapor, moinhos movidos a água ou pela ação do vento). Metalúrgica (unidades industriais de fundição, utilização do ferro na arquitetura local). Têxteis (tecelagem e outros segmentos, como a fiação e a estamparia. Têxteis alternativos como a da seda, dos lanifícios e do linho).  Cerâmica (produção de materiais de construção para revestimentos exteriores e interiores e materiais decorativos, produção de louça). Eletricidade (distribuição aos consumidores particulares e para iluminação pública). Metalomecânica (unidades fabris para produção de instrumentos e de máquinas industriais). Química (unidades fabris de tintas e sabões). Fosforeira (pequenas oficinas e fábricas de fósforos), são alguns exemplos encontrados no Museu da Indústria. Histórias associadas a objetos e protagonistas, edifícios e atividades industriais, ilustrando a Indústria, máquinas, apetrechos de trabalho, catálogos, manuais, documentação das empresas, fotografias. É um rico acervo e precisa ser guardado, visto, relembrado, preservado. Assim, vários museus trabalham, cada vez mais, com uma grande variedade de públicos aos quais procuram responder com atividades adequadas às suas necessidades e expectativas.

Museu da Indústria do Ceará  - recentemente entrou  em nova fase de obras de engenharia, inclusive com o início da construção de um prédio anexo, que abrigará a administração do equipamento.

São Paulo, Espaço Votorantim - grupo Votorantim, também traça o caminho sobre o patrimônio industrial. O conteúdo informativo do Espaço se subdivide em três eixos: a história da industrialização no Brasil e seu contexto, a história do desenvolvimento do Grupo Votorantim e a contribuição do Grupo Votorantim para a evolução tecnológica brasileira.

Peru, Lima. Museo de la Electricidad -  na Av. Pedro de Osma, n . 105 , cidade de Barranco (fundada em 1874). Acervo das máquinas de geração, transmissão e distribuição da eletricidade no Peru, destacando-se as grandes obras de  engenharia  hidroeléctrica.

Mas o que é área degradada? Há possível revitalização? Área degradada é a expressão que vem sendo utilizada, em português do Brasil, sob o significado que se aproxima daqueles referentes a palavras como brownfield, derilict land, friches industrielles, brachflaechen e altlasten, utilizadas na Europa e nos Estados Unidos. Complexos industriais e portuários são exemplos de áreas degradadas. O processo de revitalização do Porto do Rio de Janeiro,  por exemplo, tem como referências projetos executados em regiões portuárias de outras metrópoles como o Puerto Madero em Buenos Aires e o Porto de Barcelona na Espanha.

Rio de Janeiro, Região Portuária - em 1903, começou a construção do Cais da Gamboa e de sete armazéns. A inauguração oficial do moderno porto aconteceu em 1910. Nesta época, duas  avenidas foram construídas sobre aterro para dar acesso ao porto e eliminar entraves a circulação de mercadorias. Em 1937, foi definido um zoneamento para a cidade4, onde ficou estabelecido que a Zona Portuária passasse a ter uso destinado às atividades portuárias e habitação. Nas décadas seguintes, o Porto do Rio continuou a se expandir, foram construídos o Cais de São Cristóvão e a Estação de Passageiros. O Píer da Praça Mauá e parte do Cais do Caju foram resultados de aterros, respectivamente em 1952 e 1977. Em 1988 foram iniciadas as atividades do Terminal de Contêineres e ao final dos anos 90, ampliou-se esse campo de ação com novos terminais de carga geral. Com a construção, porém,  do Porto de Itaguaí5 em 1982, mais moderno e automatizado, muitas das atividades do Porto do Rio, foram transferidas para lá. O esvaziamento da região como pólo industrial e a redução das atividades portuárias no Porto do Rio causaram um impacto na economia local, mas também degradação física e social.  O “Projeto Porto Maravilha” irá revitalizar cerca de cinco milhões de metros quadrados da região portuária, operação que vem sendo coordenada pela Cia. de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (CDURP) - empresa de economia mista, controlada pela Prefeitura,e conta com a participação de proprietários, moradores, usuários e investidores. Os investidores interessados poderão comprar os Certificados de Potencial Adicional Construtivo (CEPACs). As vendas serão realizadas pela Comissão de Valores Mobiliários sob títulos mobiliários em leilões sucessivos. Com este potencial adicional poderão ser construídos edifícios mais altos do que os limites atuais, variando o número de pavimentos de cada edifício dependendo da localização do terreno. os valores arrecadados com a venda de CEPACs devem ser totalmente investidos na área do projeto e que um mínimo de três por cento do valor auferido será destinado, à recuperação do patrimônio histórico da região. E a possibilidade de propriedades pertencentes a União, que correspondem a aproximadamente 60% do terrenos planos da área de intervenção do projeto, poderem ser comprados diretamente da União por preço de mercado. Empresas e moradores que se instalarem na área do projeto também irão se beneficiar com incentivos fiscais (perdão de dívidas isenção de IPTU por dez anos, isenção do Imposto de Transmissão de Bens Imóveis por Ato Oneroso (ITBI) e redução do Imposto Sob Serviços (ISS). Além disso, quem tiver e restaurar imóveis de interesse histórico, cultural ou ecológico nos próximos 36 meses também poderá pedir o perdão de possíveis dívidas. (V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010. Florianópolis – SC, Brasil. Revitalização de Áreas Centrais Degradadas como Estratégia para o Desenvolvimento Urbano Sustentável das Metrópoles: O projeto Porto Maravilha na cidade do Rio de Janeiro. Artigo de Mariana Peixoto de Toledo e Roberto Pereira Guimarães –

Porto, Portugal - A vocação industrial da cidade do Porto  começa quando os seus estaleiros navais fervilhavam na construção de veleiros que ligariam a cidade portuária ao mundo, criando as condições para um mais amplo comércio e, por arrastamento, a exigência de criação de produtos que permitissem as trocas. As indústrias históricas surgem daí, desde a produção de meios de transporte (construção naval, cordoaria, tanoaria, ferragens) à transformação de produtos agrícolas exportáveis (linho, azeite, fumados de carne, biscoito) ou de criação de artefatos domésticos (couros, tecidos, louças, cutelarias, ourivesaria e prataria, vidro).

Alguns exemplos de Associações  em prol do patrimônio Industrial, no mundo, são:

THE INTERNATIONAL COMMITTEE FOR THE CONSERVATION OF THE INDUSTRIAL HERITAGE – TICCIH – Organização mundial  que promove a preservação, conservação, inmvestigação e documentação da herança industrial: incluindo os restos materiais de indústria, sítios, edifícios e arquiteturas, plantas, maquinário e equipamentos. Também as paisagens industriais,  os produtos e processos da sociedade industrial.  Os membros do TICCIH se  comunicam em todo o mundo, historiadores, conservadores, curadores de museus, investigadores, estudantes e professores, profissionais interessados no desenvolvimento industrial .

Comitê Brasileiro para a Preservação do Patrimônio Industrial TICCIH – BRASIL- Filiado em 2004 ao The International Comittee for the Conservation of the Industrial Heritage (TICCIH), o Comitê tem como objetivo pesquisar, investigar, mapear, catalogar, inventariar, divulgar, proteger e conservar os bens materiais e imateriais do patrimônio industrial brasileiro.

Comité Mexicano para la Conservación del Patrimonio Industrial, A.C. (CMCPI).
Associação civil constituída em 1996, dedica-se a coordenar  os esforços dos investigadores especializados, integrando com o estudo e conservação da herança industrial mexicana ( edifícios, monumentos, documentos  de cunho industrial).  Já documentou os inventários das  fábricas em  Puebla e mais: 41 fábricas em  Angelópolis, 10  em Atlixco,  5  em San Martín , 4 em Cholula. A cada dois meses revisitam os locais para levantar o registro gráfico  e ver as  condições físicas em que estão.

Portal de la Federación Europea de Asociaciones de Patrimonio Industrial y Técnico (European Federation of Associations of Industrial and Technical Heritage). Agrupa  diversas associações dedicadas  ao estudo e conservação do patrimônio industrial na Europa.

Portal del Comité Internacional para la Conservación del Patrimonio Industrial- Sección España. Temáticas sobre Minería, Textil, Siderurgia, Archivos de Empresa, Agroalimentaria, Arte, Papel, Obra Pública y Paisaje.

E quanto à ocupação de espaços vazios promovidos pela dispersão urbana? O termo em inglês urban sprawl, traduzido para português como dispersão urbana, surgiu na década de 60 como referência à expansão urbana norte-americana em direção aos subúrbios,caracterizada por baixa densidade e pelo uso do automóvel particular. Hoje, o termo é empregado em diferentes países. Quando não há estímulo à revitalização, a cidade se desenvolve em porções físicas maiores e mais distantes, utilizando áreas verdes da cidade para construção de novos empreendimentos ou infra-estrutura.  São os chamados friches industrielles, na língua francesa, na língua portuguesa  significando ruínas, vazios. A importação do conceito francês é utilizada como forma de analisar os espaços industriais produtivos de outrora, que  hoje não mais desempenham tal atividade. Vazios industriais. As friches representam para as cidades fabris do passado ou que não mais dispõem de fábricas na sua área urbana de ocupação intensiva, uma quantidade de grandes estruturas industriais abandonadas que passaram a ter uma funcionalidade diferente daquela para o qual foi concebida. Em todo o mundo existem áreas (vazios), antigas fábricas, portos, estradas de ferro, minas, locais militares,  propriedades cujo planejamento de re-uso é complexo por serem obras com elevados custos. O conceito “friches socialles” foi introduzido pelo geógrafo francês Jean Labasse, em 1966, associado aos conceitos de “ciclos industriais” e “descentralização industrial”. As friches correspondem a estruturas imbricadas na espacialidade urbana dentro de um contexto econômico e urbano que não mais se configura na realidade produtiva industrial do presente. Em variados países existem programas de reabilitação, com ênfase nos EUA e Europa, sendo neste continente europeu,  a presença das friches ser mais antiga que na América, Reino Unido, França, Alemanha e Bélgica, por exemplo. Muitas cidades européias apresentam friches como conseqüência da mudança da estrutura econômica e do declínio das indústrias tradicionais. Causas? A chamada desconcentração industrial, cuja transferência das unidades produtivas da capital em direção ao interior, deixou de herança friches oriundas do fechamento de indústrias nos antigos centros urbanos. Outra causa, a globalização e reestruturação industrial: com a abertura econômica dos mercados, a competição entre países tornou-se mais acirrada e muitas áreas industriais não conseguiram reestruturar sua base produtiva, nem acompanhar as mudanças tecnológicas, entrando em declínio. Paris e Londres possuem grande quantidade dessas friches, vazios industriais. No Brasil friches industrielles em muitas cidades, ocasionados pelo declínio econômico de atividades como a cana-de-açúcar (Nordeste), algodão (Maranhão), da mineração (Minas Gerais), café (eixo Rio de Janeiro - São Paulo).  Ou casos de áreas e estruturas obsoletas (estradas de ferro, portos, rodovias).  A reconversão desses espaços, promove a  revitalização urbana, novos usos para aquelas espacialidades.

Cidade Rio Grande/RS -  parque fabril  - Muitas indústrias do setor de alimentos, charutos, chapéus, tecidos, setor pesqueiro,  que atuaram no período de 1873 até a década de 1980, terminaram desativadas. A área total estimada das indústrias desativadas presentes na cidade do Rio Grande é de 522.529,61 m², um total de 26 friches.

Porto Alegre/RS,  antiga Fábrica da Brahma - convertida num Shopping Center na última década.

Americana (SP),  pólo têxtil  -  o maior Polo Têxtil de Tecidos Planos de Fibras Artificiais e Sintéticas da América Latina está localizado  no leste deSão Paulo, região metropolitana de Campinas. E tem a cidade de Americana como sua sede. Povoada  desde o século XVIII majoritariamente por luso-brasileiros, escravizados afro-brasileiros,  norte-americanos e mais tarde por  italianos. A competição com os tecidos asiáticos, na década de 1990, fez com que muitas unidades fabris encerrassem suas atividades. Hoje, apesar de a indústria têxtil ainda ter presença marcante, a cidade se destaca em outros setores de produção, como metalúrgico, químico e alimentício.  Há fotos da Vila Americana datadas de 1906.

Há muitos espaços vazios a serem estudados. O crescimento das cidades (urban sprawl) propiciou que muitas indústrias passassem a se localizar longe dos centros urbanos, por motivos de ruído, poluição, intenso tráfego, etc. Formaram-se então os distritos industriais nas áreas periféricas e as indústrias foram deixando as áreas centrais, onde ainda permanecem como friches, isoladas e fragmentando o tecido urbano central. Rio Grande, RS -  é um palco repleto de outras espacialidades que representaram uma economia industrial que sempre desenvolveu ritmos descompassados em sua economia, apresentando ora grande desenvolvimento e boas perspectivas futuras em termos de acumulação de riqueza e trabalho para sua população, ora de períodos longos de estagnação e retrocesso industrial.  (...) Há  um considerável espaço passível de reutilização mas algumas antigas indústrias não são tombadas como patrimônio histórico, estando em processo de degradação e com elas grande parte da memória social que essas contêm. Os espaços hoje ocupados pelas friches industrielles podem obter um novo papel dentro da cidade, embora não como atividade industrial, mas definitivamente deixando de ser um espaço sem aproveitamento, degradante e causador de impactos negativos ao desenvolvimento local e qualidade de vida dos moradores. Tais áreas podem abrigar áreas residenciais, áreas que alojem outros equipamentos urbanos ligados ao lazer assim como espaços verdes (DAMASCENO, Jenes J. O conceito de Friche Industrielle aplicado ao complexo industrial pesqueiro do município do Rio Grande/RS. Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Geografia. Rio Grande: FURG, 2006.  Outra fonte das pesquisas está no trabalho “Friches industrielles” (vazios industriais) na cidade do Rio Grande – RS: sobreposição no espaço urbano de formas e funções de épocas distintas, Autores: Perla Duarte do Couto et all).

Recife, Pernambuco, Usina Beltrão- Em 1890 são iniciadas as obras de implantação da Usina Beltrão, a primeira e mais moderna refinaria da América do Sul, na área conhecida por Tacaruna. O projeto da usina primava pela qualidade estética e técnica da edificação, área total de 54.515,79 m_ (terreno mais 9 casas) com detalhes até então pouco utilizados como: uso do concreto armado em um estabelecimento industrial; instalação de luz elétrica; criação de cooperativa com sistema de atendimento médico e construção de moradia para os funcionários e operários da usina; e sistema de água canalizada para a operação das máquinas da empresa. Em 1895 as obras da Usina são concluídas. Entre 1897 e 1899 a Usina Beltrão é comprada pela firma Cunha & Gouveia, liderada pelo empresário Delmiro Gouveia. A perseguição política a Delmiro Gouveia e sucessivas crises no setor açucareiro, forçam a Usina a fechar suas portas, após 27 anos.  O conjunto edificado é adquirido, em 1924, pela Companhia Manufatora de Tecidos do Norte que o transforma em indústria têxtil, passando a se chamar Fábrica Tacaruna. Seu funcionamento é considerado favorável no período de 1925 a 1955. O uso se mantém até 1980 quando a produção diminuiu. Em 1975 o controle acionário da Fábrica é assumido pela Tecelagem Parayba do Nordeste. Em baixa produtividade, a Fábrica passa a produzir cobertores a preços populares encerrando definitivamente suas atividades industriais em 1992. O conjunto fabril é tombado em 1994 como patrimônio histórico e artístico pelo Governo Estadual e, em 1996 é declarado de utilidade pública para fins de desapropriação. Existem ainda diversos galpões posteriores à construção original que ampliaram a fábrica nos sentidos norte, sul e oeste em épocas distintas, perfazendo uma área de 12.873,70 m2. A partir de 1998 iniciam-se os estudos para a implantação do novo uso – Centro Cultural – no conjunto da fábrica. O modelo adotado para o gerenciamento do Centro Cultural Tacaruna é o de uma Organização Social Autônoma, nova figura jurídica que tem a vantagem de poder contar, entre seus mantenedores, com instituições públicas e privadas.

A relembrar, ainda, outro novo uso, a  operação urbana consorciadaSegundo o Estatuto da Cidade, lei de 2001, é o conjunto de intervenções e medidas coordenadas pelo Poder Público municipal, com a participação dos proprietários, moradores, usuários permanentes e investidores privados, com o objetivo de alcançar, em uma área transformações urbanísticas estruturais, melhorias sociais e a valorização ambiental.

São Paulo, Hospital Matarazzo, inaugurado em 1915. Tombado em 1986, dez anos depois passou à PREVI. Recentemente foi vendido por R$ 117 milhões, para a holding de investimento WWI e o grupo francês Allard (dono de três propriedades históricas em Paris transformadas em hotéis). No local haverá centro cultural, comercial e gastronômico, hotel de luxo. O projeto tem parceria  com os governos municipal e estadual na obra de revitalização.  Selou-se o compromisso de cumprir exigências legais e ambientais, além de preservar as características históricas do imóvel.

Belo Horizonte, Minas. Programa Adote um Bem Cultural, abril de 2011. Prefeito e empresários assinaram Termo de Cooperação Mútua e Plano de Trabalho para a adoção e revitalização do Conjunto Residencial São Cristóvão, conhecido como IAPI, no bairro São Cristóvão. A Akzo Nobel/Coral fornece os materiais e a Casa & Tinta, a coordenação técnica. Os outros parceiros entram com recursos financeiros, coordenação e colaboração na execução (MRV Engenharia, Grupo Orguel, Sind. do Com. Varejista de Material de Construção, Associação Comunitária do Conjunto Residencial São Cristóvão).

Também o fato de um bem não fazer parte da história de um mesmo grupo não significa que sua proteção não possa ser legitimada pela coletividade, vez que pode ser importante para a população como um todo. E novos usos vão transformando  antigas teias socioespaciais.

Vitória, Espírito Santo. Construído pela Marinha, o Farol do Rio Doce foi instalado na margem norte do rio, em 1895, tido como inadequado 12 anos depois. Foi transferido para margem sul. Em 1998, a Associação de Moradores da Vila Regência pediu o tombamento, alegando ser ele o representante de toda transformação geográfica, histórica, cultural e econômica do Rio Doce e da Vila de Regência. Efetivado o tombamento (Livro do Tombo Histórico, sob o nº 187), isso não impediu sua substituição por outro. O antigo farol, porém, foi preservado com todos os seus pertences e exposto em área aberta, frente ao Museu de Regência.  Também exemplo é a Capela de Santa Luzia, no centro da cidade, erigida por fazendeiro nos idos de 1840. Em desuso e abandonada, sofreu grave arruinamento. Restaurada em 1943, de posse do governo estadual, abrigou o Museu de Arte Religiosa por 30 anos. Parcialmente alterada em 1976, nela se instalou a Galeria de Arte e Pesquisa, da Universidade Federal do Espírito Santo.

Omaha, EUA. Artistas foram chamados a criar obras de valor visual duradouro onde antes só havia abandono e decadência. Foi o caso de um enorme complexo de silos em desuso há décadas. Os elevadores de grãos, hoje adornados por pinturas e desenhos, fazem a alegria de  milhares de  turistas.

Nova Iorque, EUA - a cidade de Nova York viu suas antigas indústrias e galpões fabris, localizados no bairro de SoHo, ao sul da ilha de Manhatan, receberem um toque arquitetônico, dos anos 70 em diante. Espaços ociosos onde antes funcionavam caldeiras e máquinas pesadas deram lugar a cômodos com pé-direito amplo, janelas altas e ambientes integrados, sendo utilizados como moradia e lugar de trabalho. Ateliê, quarto, sala, banheiro e cozinha se confundiam em um mesmo salão. Com a revitalização, atraiu-se comércio, serviços e entretenimento à identificação de jovens profissionais bem sucedidos, complementando, assim, o renascimento arquitetônico do bairro. O conceito loft espalhou-se pelas diversas metrópoles mundo afora. Solteiros e jovens casais sem filhos são o principal público.

Mesmo  com tantas possibilidades de re-uso,  ainda assim alguém quer desfazer-se daquele imóvel de 1920.  O imóvel é admirado por todos, mas considerado pelas imobiliárias locais de pouco valor comercial? Uma idéia: nos Estados Unidos há sites que divulgam, exclusivamente, propriedades históricas à venda (ex: preservation directory.com). Liga-se o comprador que procura a "casa  histórica dos sonhos” a centenas de imóveis catalogados, de variados estilos  e épocas, dos EUA e Canadá. Cada propriedade à venda, bar, restaurante, fábrica, casa, tem sua própria página, fotos, história, estilo, ano de construção, contato com o proprietário vendedor. Nesse diretório, aplicou-se indiretamente a educação patrimonial: agregou-se respeito  e bom preço a bens de  surpreendente valor cultural.

Pergunta-se: nós, mulheres, estamos, de fato, sensibilizadas para o coletivo, ou a vida apressada passou a impedir essa visão? A atuação da mulher no mercado imobiliário tem sido destaque, pelas qualidades singulares que incrementam e ajudam o setor no fechamento de novos negócios. Pelo carisma feminino e a facilidade para se expressarem com os clientes. O número de mulheres no mercado de trabalho mundial é o maior da história e chegou à marca de 1,2 bilhão. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a participação das mulheres na força de trabalho subiu de 47,9% para 52,9% na última década do século XX. Outros estudos mostram que o enriquecimento das mulheres é uma tendência internacional. (dados do Portal Ambima, Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais,  canal exclusivo para Mulheres, 2012).

Entre os 21,1 milhões de empreendedores brasileiros, 10,7 mi­lhões pertencem ao sexo masculino e 10,4 milhões ao feminino, segundo o Relatório GEM-Brasil  2010. Mais da metade (56,9%)  ainda estão na faixa etária de 35 anos de idade, demonstrando a jovialidade dos empreendedores de negócios novos, tendência mundial.  À  medida em que a renda cresce, a taxa de empreende­dorismo também aumenta. O crescimento da atividade empreendedora no país não é apenas quantitati­vo, mas também tem sido qualitativo. De acordo com Eva Jonathan  as mulheres empreendedoras caracterizam-se por serem destemidas, autoconfiantes, apaixonadas e identificadas com seus empreendimentos, identificam-se muito com os seus negócios e lutam para continuar a crescer. (JONATHAN, Eva Gertrudes. Mulheres empreendedoras: medos, conquistas e qualidade de vida. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 3, p. 373-382, set/dez, 2005).

 Por toda parte desse  bonito e ainda tão inexplorado Brasil, velhas casas  podem se transformar em ateliês de artistas e intelectuais, livrarias, galerias, escritórios, hoteis, lojas. Pode-se atrair novas famílias. Vai vender ou locar um empreendimento? Agregou o valor afetivo a esses imóveis? Estimulou a memória da herança cultural? Ritmo de trabalho, quantidade mínima de interferência de terceiros e interesses pessoais alcançados, são fontes de satisfação. Mas a satisfação total, total mesmo, só é alcançada com a soma e domínio das experiências vividas, individual e coletiva, no passado e no presente. A educação patrimonial tem que vir à reboque. Porque, em verdade, só há um meio eficaz de assegurar a defesa permanente do patrimônio de arte e de história do país: via educação popular. Conservar o patrimônio cultural é tarefa de todos os brasileiros e não apenas do Governo e autoridades locais.  Pelos exemplos citados, dezenas são as oportunidades, inúmeras possibilidades de novos usos. Importa mesmo é ver, no aproveitamento do antigo, além da alternativa viável para investimento, a criação da atitude consciente e coletiva. Assim, reformar, remodelar, reconstituir, reutilizar, funcionalizar, ampliar, resgatar, reciclar, reanimar, revitalizar, recuperar um bem histórico nas teias sócioespaciais... sim, faz bem à alma, ao bolso, à coletividade.

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Dicas de leitura:

Cartilha do CREA/SP – Patrimônio Histórico: Como e Por Que Preservar, 2008 – disponível também em : http://www.creasp.org.br/arquivos/publicacoes/patrimonio_historico.pdf

Caderno 6  da CVM – fundo imobiliário/ Cartilha do Investidor. http://www.cvm.gov.br/port/protinv/caderno6.asp#II

Manual de Conservação Preventiva para Edificações. GT-IPHAN –Programa Monumenta/Bid / Min Cultura - http://www.monumenta.gov.br/upload/Manual%20de%20conserva%E7%E3o%20preventiva_1168623133.pdf – acesso em 26/1/2012)

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*Noely Manfredini é escritora (22 livros publicados), colunista da Revista Corporate sob o título Empreendedorismo Feminino. Janaína Bueno é historiadora formada pela UFPR, mestranda em Museologia com enfoque em Patrimônio Industrial e Patrimônio Imaterial, em Lisboa: Paôla M. Bonfim é Mestre em História atuando  como Técnica em Arqueologia

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